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  • 16abr /18

    Produção do jornalista pernambucano Geneton Moraes disponível ao público na Fundaj

  • Uma parte significativa da produção cinematográfica de Pernambuco, largamente desconhecida pelas gerações mais novas, volta a estar disponível aos interessados em cinema. São os filmes experimentais realizados na bitola Super-8 pelo jornalista pernambucano Geneton Moraes Neto (1956-2016), nos anos 1970 e 1980. Um conjunto de 16 curtas foi transferido da película para o formato digital 4K, por meio de iniciativa da recém-inaugurada Cinemateca Pernambucana, da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.

    Os filmes, realizados entre 1973 e 1984, foram exibidos, na época, em festivais e para pequenos grupos de universidades e cineclubes. Com o tempo, foram relegados a segundo plano pela vasta produção de Geneton no campo do Jornalismo e dos livros. Vistas hoje, as obras suscitam uma rica discussão sobre a estética do cinema e o papel do Super-8 nas décadas de 1970 e 1980, que no Recife teve vários trabalhos antológicos, como os de Jomard Muniz de Brito, Amin Stepple, entre muitos outros. Todos realizados numa época em que o cinema experimental não tinha produção, nem se sabia o que seriam as leis de incentivo à cultura no país.

    A produção de Geneton Moares é fortemente influenciada pelos valores da contracultura, sendo uma reação aos anos mais duros do regime militar brasileiro. Como realizador de cinema, bebia nas fontes do francês Jean-Luc Godard e do baiano Glauber Rocha. Inspirava-se na música popular, sobretudo no rock e em Caetano Veloso. Basicamente os filmes revelam o mesmo universo de influências e interesses que iria nortear o trabalho dele nos anos seguintes.Geneton e Caetano em entrevista ao DP 1971

    O primeiro curta, Mudez mutante, de 1973, é o mais simples, quase minimalista. Em uma pequena sala, um casal silencioso lê revistas, enquanto a câmera percorre as paredes repletas de manchetes de jornais e revistas. Provavelmente por pura coincidência, lembra alguns curtas de Wim Wenders na fase inicial. Nessa discreta reflexão sobre a liberdade em tempos de ditadura, já se vê o uso cênico das manchetes de jornais misturado ao uso de músicas. Em película, é o filme em pior estado de conservação, mas, ironicamente, agora transferido para o digital sem restauração – a imagem esgarçada pelo tempo acaba apresentando outro elemento estético interessante para o conteúdo da fita. (Na imagem acima, Caetano dá entrevista a Geneton (dir.), no Diario de Pernambuco, 1971).

    Isso é que é, de 1974, baseado em poema-processo de Ney Leandro de Castro, tem roteiro de Amin Stepple. É claramente uma obra que pode ser atribuída ao idealismo juvenil. As imagens mostram alguns jovens de bodoque na mão mirando anúncios de empresas multinacionais nas ruas do Recife. A mensagem simplista fazia sentido então – e tem o seu encanto para muitos ainda hoje. O jingle da Coca-Cola, que dá título ao filme, é tocado na trilha sonora e também pichado numa parede sobre a data de 1822, o que prenuncia uma preocupação geral nos filmes: a questão da identidade nacional e da independência do Brasil.

    A flor do lácio é vadia, de 1978, tem a ótima narração de Jomard Muniz de Brito enquanto a câmera percorre as ruínas do Forte Orange, em Itamaracá. O texto fala direto com o espectador, como fazia Godard na sua fase militante. “O cinema comporta discursos desde que o país seja o Brasil”, diz o texto. “O Brasil da Rede Globo não confere com o original.” As possíveis ironias da mensagem só aumentaram com o tempo.

    Em parceria com o amigo Paulo Cunha, Geneton fez, em 1978, Esses onze aí – um filme panfletário, a favor do futebol. O hoje professor de Cinema Paulo Cunha coordenou a digitalização da obra de Geneton junto à Cinemateca Pernambucana. O processo foi realizado no laboratório Pro8mm, em Burbank, na região metropolitana de Los Angeles. Esses onze aí é provocador do início ao fim, ao desmistificar as teorias que apresentam o futebol como uma atividade alienante. Diz a narradora Juliana Cuentro, dedo em riste, olhando para a câmera: “Este filme é dedicado a Pelé, o gênio da raça”.  Muita gente pensou que era ironia. Não era. Geneton tinha, entre outras qualidades, a de não seguir o rebanho das opiniões consensuais no grupo em que circulava. Curioso é o uso livre que se fazia de música, neste caso de Jimi Hendrix e das Frenéticas, sem preocupação com direitos autorais ou obtenção de permissão. A pequena circulação dos filmes facilitava que os artistas não se preocupassem com isso.

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