aa1 Notícias
  • 04set /17

    Crise política amplia interesse pela chamada história do tempo presente

  • Por JULIANA SAYURI, da Folha de S.Paulo

    Foto: Leandro Moraescrise politica

    “Primeiramente… Fora, Temer”, disse o mestre de cerimônias ao abrir o 29º Simpósio Nacional de História no fim de julho, arrancando aplausos dos mais de 600 historiadores apinhados num auditório da UnB (Universidade de Brasília).

    O encontro, o maior do gênero na América Latina, reuniu mais de 4.000 historiadores. Durante cinco dias de comunicações e debates, diversas vezes a atualíssima conjuntura política ocupou o centro das atenções –um fenômeno novo.

    A palavra história foi por muito tempo sinônimo de passado. O historiador, por sua vez, era visto como um profissional afeito a antiguidades, mausoléus e “memorabilia”, destinado a se debruçar exclusivamente sobre fatos de um passado longínquo.

    Atualidades e disputas políticas candentes não faziam parte de suas inquietações intelectuais. Acreditava-se que era preciso esperar o tempo passar para estabelecer distanciamento capaz de garantir um olhar objetivo sobre a realidade. De um lado, o historiador, a história e o passado. Do outro, o presente.

    Nas últimas décadas, porém, historiadores de vários países vêm encampando uma transformação teórica nas universidades: a defesa da história do tempo presente, uma linha que se dedica a estudos do passado próximo, dos séculos 20 e 21, dialogando com antropologia, ciência política e sociologia.

    A Comissão Nacional da Verdade e a Lei de Acesso à Informação, instituídas em novembro de 2011, descortinaram diversas possibilidades de pesquisa para historiadores brasileiros, o que impulsionou o estudo do tempo presente.

    “O contexto atual lança um convite inevitável para pensar o tempo presente”, afirma o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, num intervalo no encontro brasiliense. “As intervenções dos historiadores aumentaram consideravelmente, em especial diante da situação política que vivemos desde 2013 .”

    Segundo o professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e ex-presidente da ANPUH-BR (Associação Nacional de História), “a disputa eleitoral de 2014, que coincidiu com o aniversário do golpe de 1964, também pautou discussões sobre democracia e ditadura”. Disso resultou a superação do longevo preconceito acadêmico contra o presente.

    NOVOS ALVOS

    Num contexto de polarização política, historiadores têm tomado a dianteira de debates públicos sobre, por exemplo, o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016 (que alavancou o movimento Historiadores pela Democracia, uma página do Facebook que se tornou livro da editora Alameda) e o programa Escola sem Partido (que mira a suposta doutrinação ideológica em sala de aula).

    Nesta Folha, a mobilização dos historiadores em torno de Dilma (àquela altura apenas afastada) foi criticada pelo colunista Demétrio Magnoli no dia 25 de junho de 2016. “O historiador indaga o passado, formulando hipóteses que orientam a investigação e reconstrução da trama dos eventos”, disse ele, que é sociólogo e doutor em geografia humana.

    Motta discorda . “História não é a ciência do passado. É a ciência dos homens no tempo, que busca compreender o passado pelo presente e o presente pelo passado”, disse, citando Marc Bloch (1886-1944), uma das mais importantes referências na historiografia francesa.

    A corrente que se interessa por análises históricas a quente nasceu num laboratório do CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica), na França: o IHTP (Instituto de História do Tempo Presente), fundado em 1978 e que aglutinou intelectuais como François Bédarida (1926-2001), François Dosse e Henry Rousso.

    “A história do tempo presente nasceu de uma demanda social para responder a um ‘passado que não passa’, para usar a expressão de Rousso. Isto é, um passado cujas consequências e traumas se fazem sentir de modo muito vivo no presente, sendo alvo de usos políticos e distorções nas disputas atuais”, diz Mariana Joffily, da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), um dos principais polos de estudos dessa linha e que realizará o 3º Seminário Internacional História do Tempo Presente no fim de outubro.

    No Brasil, passou-se a discutir história do tempo presente a partir da década de 1990. “Antigamente, existia uma interdição, uma resistência ao tempo presente, pois acreditava-se que a proximidade temporal pressupunha problemas para a objetividade científica”, lembra Marieta Moraes Ferreira, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    “Os estudantes tiveram papel importante: os jovens historiadores ficaram cada vez mais interessados em temas contemporâneos ao longo dos anos 1990 e 2000. Em suas teses, apresentavam propostas de estudos [acerca de temas] muito recentes, sobre ditaduras militares e repressão política, por exemplo”, afirma ela, co-organizadora do livro “História do Tempo Presente” (FGV).

    DISPUTAS

    A profusão de pesquisas dessa natureza fomentou a discussão teórica nos bancos da universidade e ajudou a legitimar a corrente da história do hoje.

    A inserção dos novos historiadores no debate público, entretanto, ainda enfrenta pressões. Por um lado, persiste certa resistência no circuito acadêmico. Por outro, há que lidar com a reação dos atores estudados, que podem concordar ou discordar das análises. Em outras palavras, a história não é uma ciência só dos mortos, mas também dos vivos –e estes têm voz.

    Os ecos são muitos. Estudos sobre escravidão repercutem nos debates contemporâneos sobre racismo, enquanto trabalhos sobre ditaduras militares influenciam discussões sobre direitos humanos.

    “Um debate muito forte marcou a Europa nos últimos tempos: o negacionismo, ou seja, a negação da existência do Holocausto e dos campos de concentração. Historiadores precisaram se posicionar publicamente para contestar essas teses”, diz Ferreira.

    “Estamos vivendo um momento ‘presentista’, de divulgação desenfreada de informações que aparecem e desaparecem nas mídias sociais sem compromisso com a verdade. Mais do que nunca, a investigação histórica, comprometida com a fidedignidade das informações, é fundamental”, analisa a professora da UFRJ.

    O filme “Negação” (2016), dirigido por Mick Jackson, ilustra como essa guinada epistemológica sacou os historiadores da zona de conforto para lançá-los em discussões disciplinares e políticas com a mídia, a Justiça e a sociedade, esta última frequentemente representada por vítimas de acontecimentos traumáticos, como o Holocausto.

    Baseado em fatos reais, o longa-metragem confronta uma historiadora norte-americana a um negacionista (um historiador britânico autodidata). Perante uma corte inglesa, ela precisa provar que seu antagonista estava errado –e que, portanto, suas críticas a ele não eram caluniosas.

    A produção mostra como a história passou a disputar espaço com outros atores e disciplinas na queda de braço pela narrativa que prevalecerá no futuro.

    MÉTODO CIENTÍFICO

    “Quem controla o passado controla o futuro”, escreveu George Orwell (1903-50). Para Mariana Joffily, a frase sintetiza um dos desafios da história do tempo presente.

    “Uma contribuição desse campo é justamente a de admitir algo que, no ofício do historiador, é visto como uma fragilidade: a consciência das possibilidades, limites e instabilidades da construção de um conhecimento sobre o passado”, diz.

    A possibilidade de interpretações inéditas e revisões diante da descoberta de documentos permite repensar certos capítulos da história. “Isso, evidentemente, aliado a um instrumental, construído desde o século 19, de análise crítica e cruzamento de fontes, de metodologias de análise e arcabouço teórico”, pondera Joffily.

    “Sempre lembro uma frase de François Bédarida: a história do tempo presente é feita de ‘moradas provisórias'”, afirma Marieta Moraes Ferreira. “Na verdade, todo conhecimento científico tem uma dose de provisoriedade. Isso se manifesta mais claramente nessa linha, pois muitas vezes trabalhamos com histórias que ainda não tiveram seu fim”, afirma.

    Recentemente, um meme que faz um aceno à interminável crise política brasileira se espalhou pela internet feito rastilho de pólvora. Ele estampava os seguintes dizeres: “Tenho pena é dos historiadores, que vão precisar explicar esse rebosteio todo no futuro”.

    “A frase é interessante, pois remonta à ideia clássica de um historiador ‘do futuro’, distante, que poderia explicar o que aconteceu no passado”, analisa Rodrigo Patto Sá Motta. “A diferença agora é que nós, historiadores, também somos convidados a explicar o que está acontecendo no presente”, diz.

    Convite aceito.

    JULIANA SAYURI, 31, jornalista e historiadora, é autora de “Diplô: Paris – Porto Alegre” (Com-Arte).

    Fonte: Folha de S.Paulo